PiraMusical: Etiqueta musical e o acesso ao encantado mundo do teatro

Colunista Luis Fernando Dutra relembra as noites de gala nos teatros e fala sobre a reinauguração do Dr. Losso Netto. Vale a pena conferir.

29/08/2018 | 11:48
Última atualização: 29/08/2018 | 12:55

Foto: Divulgação

Mais uma quarta-feira, mais algumas reflexões sobre o maravilhoso universo da música. E hoje gostaria de comentar a respeito de algumas “Etiquetas”, pois estamos numa semana com muitas opções de cultura nos teatros de nossa Piracicaba (SP).

Durante muito tempo, e isso continuou até alguns anos atrás, os concertos de Música Clássica eram bem elitistas sim. Os grandes Teatros traziam tanto orquestras nacionais como estrangeiras para noites de gala, nos quais o público ia com trajes elegantes, cavaleiros de smoking ou até mesmo casaca e cartola. As damas super elegantes em seus vestidos longos e muitas jóias. Logo na entrada do teatro podiam saborear uma deliciosa taça de Champagne, que muitas vezes custava quase o mesmo preço da garrafa toda. Mas isso valia a pena, pois a pessoa que conseguisse isso, ganharia um status na sociedade. Muitas vezes, essas pessoas não tinham a menor idéia do que iria acontecer dentro da sala de espetáculos e na verdade, nem davam muita importância para isso, o importante era parecer uma pessoa culta e rica.

Aos poucos, as orquestras foram saindo dos teatros e ocupando outros espaços públicos: igrejas, praças, parques, teatros mais populares e com isso, o público que não estava acostumado a frequentar apresentações deste tipo, começou a ter mais oportunidades de assistir concertos sem ter que pagar ingressos caríssimos e nem mesmo ter que usar roupas de gala. Indo de encontro ao público, as orquestras começaram a realizar um lindo trabalho de formação de plateia, pois quando ouvimos um grupo sinfônico é impossível não gostar, não se interessar e começar a frequentar os teatros, que já não podem mais cobrar ingressos muito caros, correndo o risco de ter plateias pela metade.

Um outro fator importante de ressaltarmos é que a música era restrita também a poucas cidades, em especial às capitais que possuíam os seus teatros, tais como o Teatro Municipal de São Paulo, Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Teatro de Manaus, Teatro de Belém entre outros. Poucas cidades do interior dos estados tinham os seus teatro ou até mesmo os seus conjuntos musicais. Percebendo que este era um espaço que precisava ser preenchido, muitos músicos se aventuraram a ir até estas cidades e dar início a formação de novos músicos, novos conjuntos e novas plateias. E nem estamos falando de muitos anos atrás. Há alguns anos , estive em Sobral no estado do Ceará, com a Orquestra Experimental de Repertório, quando eu ainda fazia parte desta Orquestra. Ao chegarmos lá, chovia bastante e a Orquestra ia tocar num palco montado numa praça da cidade. A chuva perdeu a força e o público compareceu a este que foi o primeiro concerto de uma orquestra na cidade. Os olhares curiosos no início se transformaram em olhares de emoção e encantamento no final.

Piracicaba é uma cidade de grande riqueza cultural, tendo todos os tipos de manifestações artísticas acontecendo todos os dias e em vários locais, tanto públicos como particulares. É muito bom ver que o público é cada vez mais numeroso e também mais exigente. No caso dos concertos de Música Clássica, ainda me deparo com muitas pessoas falando que não vão assistir porque não entendem nada de música, ou por não terem roupas adequadas ou até mesmo, por não saberem “como se comportar”nos concertos. Então vamos começar de trás para frente, comentando sobre os comportamentos em Concertos.

Estamos numa semana de inúmeras apresentações culturais por ocasião da reinauguração do Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Temos a oportunidade de assistir concerto de orquestra, grupo de câmara, dança, teatro, exposição de artes plásticas, sem contar com a programação do Teatro Erotides de Campos, que receberá mais uma vez a Orquestra Sinfônica de Piracicaba para seu concerto mensal, no dia 01 de Setembro, às 17h30 e às 20h.

Quando vamos assistir um show musical da chamada música popular, seja ela sertaneja, rock, samba ou jazz e sendo este show num teatro ou em algum local aberto, com certeza teremos um sistema de amplificação do som. Todos os instrumentos e microfones regulados com todo o cuidado para que o público possa ouvir o som com a máxima perfeição. Muitas vezes o público é convidado a participar ativamente deste show cantando junto ou até mesmo dançando ao som dos ritmos contagiantes que realmente não nos deixam ficar parados. Mas, quando vamos a um concerto de Música Clássica, na grande maioria das vezes sem qualquer tipo de amplificação, temos que ter uma outra postura. E mesmo nos concertos ao ar livre, quando a orquestra ou o instrumento também são amplificados, temos que manter o mesmo comportamento que teríamos num teatro.

Enquanto num show, o som foi regulado com antecedência, equilibrando o volume de todos os instrumentos, num concerto acústico, isto é, sem uso de equipamentos de som, este controle do volume que nós chamamos de “Dinâmicas” são realizados em tempo real. Nas partituras nós temos indicações escritas pelos compositores determinando o volume que o músico deve tocar. Temos ao todo 8 níveis de volume, do PPP ( piu pianíssimo – Som quase inaudível ) ao FFF ( Fortisíssimo – Som extremamente alto ). Se pensarmos que numa orquestra temos até 15 naipes diferentes, cada um fazendo uma dinâmica diferente, cada um com o seu timbre e a sua linha musical, temos uma enorme variedade de sons. Um dos muitos trabalhos do Maestro da orquestra é fazer este equilíbrio sonoro entre os naipes no momento do concerto. Cada dia, cada teatro, cada música exige uma grande concentração por parte do Maestro e também dos instrumentistas, pois todos devem estar com os ouvidos muito atentos para tocarem juntos, no mesmo andamento e também se equalizarem, respeitando as dinâmicas escritas pelo compositor, pois tudo isso é que dará beleza à música.

Com tudo isso, o público deve colaborar com os artistas que estão se apresentando, mantendo-se ao máximo em silêncio e acomodados em seus lugares. Quando tocamos, estamos concentrados em diversas coisas ao mesmo tempo : notas, ritmos, dinâmicas, fraseados, afinação, sonoridade, indicações do maestro…qualquer ruído ou movimento na plateia, pode comprometer a qualidade do espetáculo, pois isso “rouba” a atenção de quem está se apresentando no palco. Portanto, quem vai a um concerto, deve sempre chegar com antecedência ao local, pois ali também é uma oportunidade de se encontrar com amigos, fazer novas amizades e conversar. Ao toque do sinal, todos devem ocupar os seus lugares e imediatamente desligar os seus celulares e demais equipamentos eletrônicos.

Se você vai a um concerto, está se dando de presente um momento único, então viva este momento com intensidade, se permita absorver todos os sons e toda a maravilha que a música lhe proporcionará. Se desligue do mundo que ficou do lado de fora, evite conversar ou fazer comentários durante a apresentação pois você deixará de ouvir algumas sutilezas maravilhosas no momento em que estiver falando, e pior do que isso, fará com que as pessoas ao seu redor também percam esta oportunidade. Em vários teatros ainda é proibido fotografar ou filmar os espetáculos, mas isso é uma coisa quase impossível de controlar, então, se você deseja guardar uma lembrança daquele momento, procure se informar se é permitido registrar alguma imagem e qual o momento certo para isso. Aqui em Piracicaba temos feito sempre um “Bis”, para que todos possam filmar e fotografar, lembrando sempre que os músicos estão lendo suas partituras e o uso de “flashes” atrapalha bastante esta leitura, então deve-se evitar usa-los.

Como já escrevi aqui neste texto, ir a um teatro, seja para assistir um grupo musical, teatro ou dança, é poder viver um momento único então o ideal é ir disposto a viver este momento, sem levar sacolinhas com bolacha, balas, refrigerantes etc…..pode parecer piada, mas na minha carreira de 30 anos como músico de orquestra, já vi de tudo e essas coisas são muito desagradáveis e desrespeitosas, tanto para os profissionais que estão trabalhando quanto para as pessoas que estão sentadas próximas.
Uma outra dica importante é para os pais que querem levar as crianças para assistir concertos. Todas elas são muito bem vindas, pois já terão contato com a arte logo cedo e com certeza, serão o nosso público no futuro. Mas, como criança tem bastante energia, as vezes é difícil fazê-la ficar sentada e em silêncio durante 1h ou 90 minutos. Neste caso, procure se sentar perto de alguma porta de saída, caso a criança comece a ficar inquieta ou fazer barulho, é mais fácil sair da sala e dar uma volta.

Tivemos essa experiência na Capela do Monte Alegre, onde algumas mães levavam seus bebês e crianças aos concertos e ficavam mais ao fundo da Capela. Nas primeiras vezes, elas ficavam mais do lado de fora do que dentro da Capela, mas com o tempo, as crianças se acostumaram e passaram a acompanhar toda a apresentação com os pais. Mas também tivemos algumas experiências negativas, quando algumas crianças foram se sentar nos primeiros bancos e durante a apresentação, se levantaram para dançar ao som de Haydn, bem na frente do quarteto de cordas que estava se apresentando.

Por hoje é isso, na próxima semana continuaremos nossa reflexão sobre comportamentos e também comentaremos sobre alguns protocolos de concertos.

Se quiser um momento para ouvir boa música e recuperar energias para enfrentar a semana, acompanhe o programa “Opus 105,9”, todos os Domingos, das 20 às 21:30h pela Rádio Educativa FM de Piracicaba – 105,9 e o programa “Clássicos ao Cair da Noite”, todos os Domingos, das 21 às 22h pela Rádio Educadora AM de Piracicaba – 1060.

Uma ótima quarta-feira e uma semana repleta de música a todos.

Luis Fernando F. Dutra

Luis Fernando F. Dutra

Luís Fernando F. Dutra é violinista, professor e maestro | Whatsapp : (19)99816-0509 | E-mail : luisfernandofischerdutra@gmail.com | Facebook : www.facebook.com/profile.php?id=100011059385474

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