PiraMusical: A música nos leva a conhecer épocas, lugares e pessoas

Luis Fernando Dutra conta sobre fatos felizes, outros nem tantos, proporcionados pela música.

19/09/2018 | 11:30
Última atualização: 19/09/2018 | 11:57

Foto: Luis Fernando Dutra (Arquivo Pessoal)

Escrevendo o texto da semana passada fui levado de volta ao passado, não muito distante, mas voltei no tempo, no espaço e com isso recordei muitas coisas. Logo que saí da Orquestra Experimental de Repertório (OER), comecei a escrever as minhas lembranças, tudo o que vivi naquela maravilhosa temporada de 22 anos como violinista da orquestra, dois anos como bolsista e 20 anos como monitor do 2º Violinos. Foram muitos fatos alegres e tristes, lugares lindos e feios, pessoas maravilhosas e também as não tão maravilhosas.

Sempre sonhei em tocar naquela orquestra formada por jovens e talentosos músicos. Criada pelo Maestro Jamil Maluf, a Orquestra Experimental de Repertório é uma orquestra que chamamos de “Pré-Profissional” e tem por finalidade preparar instrumentistas da melhor qualidade para ingressarem no mercado de trabalho. Nela os músicos tem a oportunidade de ganhar experiência na música em conjunto, tocar o repertório que as grandes orquestras do mundo todo tocam  e também as que ninguém toca, mas que são verdadeiras pérolas da música. Mas quero voltar ainda mais no tempo, pois eu só conheci a OER graças a diversos amigos que conheci graças à Música.

Quando ainda era aluno da Escola de Música de Piracicaba, a Professora Celisa Amaral Frias sugeriu que eu fizesse alguns cursos de Férias, pois neles eu teria a oportunidade de conhecer outros professores, maestros e também outros instrumentistas. Então, aos 15 anos fiz minhas malas e nas  férias de Janeiro de 1987 embarquei para Curitiba, onde fiquei 15 dias participando do “Oficina de Música”, no qual tive aulas com o grande Professor Paulo Bosísio e toquei com o Maestro Roberto Duarte. Foi a primeira vez que toquei em Master Class, que numa tradução bem simples significa uma aula com plateia e lá fiz muitos amigos. Acabando o curso de Curitiba, voltei para casa, fiquei dois dias e já fui para Tatuí, onde acontecia o “Encontro de Orquestras Jovens”. Foram mais 15 dias de curso tendo aulas com outros professores, tocando com outros maestros e conhecendo mais novos amigos. Não satisfeito, nas férias de Julho passava 30 dias em Campos de Jordão participando do Festival de Inverno, com mais aulas, ensaios de orquestra, música de câmara e mais novos amigos.

Ainda tive a oportunidade de ir para a Argentina junto com a Orquestra de Câmara da Escola de Música de Piracicaba. Ficamos alguns dias em Buenos Aires, onde fizemos vários concertos em locais belíssimos e depois fomos até Mendoza, onde também fizemos concertos e um curso com o Professor Humberto Carfi, um renomado Professor e Maestro argentino, que na época já estava com idade bem avançada mas tinha uma energia impressionante.

Todos estes cursos foram de grande importância para a minha formação e desenvolvimento tanto musical como pessoal. Longe de casa e da família,  formávamos nestes locais novas famílias e todos cuidavam de todos. Tive a oportunidade de conhecer pessoas de todas as regiões do Brasil e também do exterior. Passávamos todos os dias juntos, fazendo música, trocando ideias, experiências, aprendendo as diversas culturas e o mais importante, cultivando amizades, sem interesses e sem discriminações. Todos éramos iguais, buscando evolução profissional.

Seria uma tarefa impossível escrever aqui a quantidade de amigos que fiz naquela época e que permanecem até hoje. São muitas centenas de pessoas que até hoje mantem contato social e também profissional, vários deles fazendo carreiras brilhantes no exterior e alguns também mudaram para outras áreas profissionais. E entre estes que mudaram de profissão, está o amigo que me levou para a Orquestra Experimental de Repertório, o Maurício Stanzione Galizia.

Na época estudávamos com a professora Elisa Fukuda, mas pouco nos encontrávamos, pois eu ia até São Paulo para fazer aulas e tinha que voltar no mesmo dia para não faltar na Escola no dia seguinte. Mantínhamos contato telefônicos eventualmente, pois na época só existia o telefone fixo e os interurbanos eram muito caros, e também por cartas.

Quando ele soube que eu havia me mudado para São Paulo, me telefonou para avisar que tinha vaga para violinista na OER e logo seria realizado o teste. Consegui passar no teste e lá estava eu tocando na Orquestra dos meus sonhos. Enquanto isso, o Maurício também tocava na Orquestra mas estudava na primeira turma de Engenharia Mecatrônica da USP. Formado nesta área, guardou o diploma e continuou tocando e fazendo os mesmos festivais de férias que eu. Mas por influência de outra colega de festivais, prestou vestibular para medicina e passou. Hoje ele vive nos Estados Unidos, trabalhando na Ohio State University College of Medicine, no qual é um importante radiologista.

Destaquei o Maurício por ter sido o amigo que abriu as portas do Teatro Municipal de São Paulo para mim, mas ainda tem muitos outros que tiveram e continuam tendo grande importância na minha história, falarei sobre eles em novos textos.

O que eu quero destacar hoje é que graças ao fato de eu ter iniciado os estudos de um instrumento, tive a oportunidade de conhecer muitos lugares e pessoas. Em 36 anos de estudos viajei para diversos lugares para estudar ou trabalhar,  na grande maioria dos lugares eu já tinha amigos que conheci durante a fase de estudante, e sempre foi uma alegria reencontrar estes amigos. Até hoje faço muitas novas amizades graças à música. Em cada lugar que vou tocar ou até mesmo que eu vá passear, pessoas vem conversar sobre a orquestra, os programas da rádio e sobre esta coluna. São raras as vezes que saio de casa sozinho ou com a família e não encontro pessoas que venham conversar ou pelo menos fazer algum rápido comentário sobre alguma das atividades. São pessoas que se aproximam com uma enorme gentileza e carinho, reforçando a afirmação de que “Nós colhemos o que plantamos”.

Se eu não tivesse estudado música, como teria sido a minha vida até hoje ? Não sei responder, nunca trabalhei com um Plano B no sentido de carreira profissional. O que posso dizer é: Gratidão enorme à música, a todas as pessoas que entraram e continuam entrando na minha vida através da música, a todas as dificuldades enfrentadas no passado e nos dias atuais, pois elas só reforçam a importância que essa arte tem para mim!

Quer ser feliz ? Dedique um tempo do seu dia para tocar um instrumento ou cantar uma música. Melhor ainda se for junto com alguma outra pessoa.  Em música, não trabalhamos rivalidade. Só posso tocar bem se estiver somando com os meus colegas. A única competição que deve existir é comigo mesmo, tenho que me superar todos os dias, e me superando terei condições de ajudar os outros, não só na música mas também na vida em sociedade. Precisamos de muitos “Maurícios” na nossa vida, pessoas que nos abram portas com o único intuito de tornar a vida mais leve e feliz.

Com os músicos do projeto Consertão/Foto: Luis Fernando Dutra (Arquivo Pessoal)

Musicalize-se !!!

Se quiser um momento para ouvir boa música e recuperar energias para enfrentar a semana, acompanhe o programa “Opus 105,9”, todos os Domingos, das 20 às 21:30h pela Rádio Educativa FM de Piracicaba – 105,9 e o programa “Clássicos ao Cair da Noite”, todos os Domingos, das 21 às 22h pela Rádio Educadora AM de Piracicaba – 1060.

Uma ótima quarta-feira e uma semana repleta de música a todos.

 

Luis Fernando F. Dutra

Luis Fernando F. Dutra

Luís Fernando F. Dutra é violinista, professor e maestro | Whatsapp : (19)99816-0509 | E-mail : luisfernandofischerdutra@gmail.com | Facebook : www.facebook.com/profile.php?id=100011059385474

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