O valor da memória em ‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulain’

Filme do cineasta e roteirista francês Jean Pierre Jeunet ressalta a importância da preservação das lembranças. Confira texto na coluna da jornalista Arlete Moraes.

04/09/2018 | 17:00
Última atualização: 04/09/2018 | 16:09

Foto: Reprodução (Fãs da Psicanálise).

Paulo José já afirmava na locução de Ilha das Flores que “recordar é viver”, mas na semana em que um dos museus mais importantes do país virou cinzas e que comemoramos a Independência do Brasil, a frase pareceu conveniente. Criamos datas comemorativas para não esquecermos de fatos históricos, do nascimento de alguém ou do dia que realizamos algo muito importante para nós mesmos. E se não bastasse isso, nossos celulares fazem e armazenam selfies para postarmos quando nossa carência atinge o ápice e é necessário receber “alguns likes da comunidade”. Em “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, o diretor Jean Pierre Jeunet, parece ter usado dessa característica humana para compor um filme sensível, diferente, cheio de detalhes e bem produzido.

O longa – que foi lançado oficialmente no Brasil em fevereiro de 2002 e está disponível na Netflix- conta a história de Amélie Poulain, uma jovem do interior da França, que se muda para Paris e começa a trabalhar como garçonete num café. Enquanto assiste a notícia da morte de Lady Di (Diana, Princesa de Gales) na TV, ela deixa cair a tampa da colônia e acaba descobrindo uma caixinha dentro de seu apartamento. A partir de então, Amélie inicia uma jornada investigativa para encontrar o dono do objeto e devolvê-lo.

Passados 17 anos de seu lançamento mundial, a história do Amélie Poulain permanece atual e interessante. Muito disso se deve as referências ao próprio comportamento humano que aparecem no filme. Para o docente do Departamento de Cinema e Audiovisual da Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep), Glauco Madeira de Toledo, o filme tem muito a ver com a ideia de podermos resgatar memórias do passado e de nossas vidas, para que nos tornemos pessoas melhores. “Embora aqui melhores seja sinônimo de felizes (o que necessariamente não é verdade), para essa construção, esse reencontro é positivo.”

Foto: reprodução (Revista Prosa Verso e Arte).

Segundo o professor, quando Amélie resolve devolver o objeto para o antigo morador de seu apartamento é como se ela estivesse promovendo um resgate de lembranças para essa pessoa. Ela desenvolve uma situação em que a pessoa se apropria de volta de uma recordação boa. O filme, por meio de sua personagem principal, tenta identificar as características dos personagens, quase catalogando-os. “Como se ela estivesse colecionando e montando uma espécie de álbum de figurinhas de personagens diversos. Isso é um comportamento museológico”, aponta.

Um outro paralelo que pode ser desenvolvido, de acordo com o especialista, é com o incêndio que destruiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro (RJ). Considerado um dos mais importantes do país e da América Latina, o prédio, foi atingido pelo fogo no último domingo (02 de setembro). Grande parte do acervo, cerca de 20 milhões de itens incluindo, fósseis, múmias, registros históricos e obras de arte foram consumidos pelas chamas.

“O filme acaba ressaltando, mesmo fora de época (é um filme de 2001 e nós estamos falando de um incêndio em 2018), o quanto é importante para nós a memória, a preservação das lembranças, o reencontro com quem éramos e quem somos hoje, em função desse contraste. Então quando ela resolve que vai devolver aquilo que encontrou, o que ela quer é que essa pessoa passe novamente por essas lembranças positivas e que se torne mais feliz”.

Foto: Reprodução (Revista Prosa Verso e Arte).

Além do enredo atemporal que compõe o longa de Pierre Jeunet, o filme agrada pela sensibilidade que imprime a cada personagem em cena. Ele chega a ser comovente quando nos mostra as facetas de Amélie e consegue dar beleza as pequenas coisas do dia a dia. O belo, em Amélie Poulain, pode ser um detalhe aparentemente insignificante. A produção também tem ao seu favor a trilha sonora de Yann Tiersen. Tão adequada a melancolia de Amélie (e de quem com ela divide a cena) a música é quem nos dá a percepção de quão profundo e angustiante é a aparente solidão dessa personagem.

E para nos mostrar quem é Amélie, o autor busca referências cinematográficas em Ilha das Flores. O curta de Jorge Furtado (feito em 1989, com narração de Paulo José) é provavelmente, segundo Madeira, o mais famoso curta brasileiro e parece ter sido referenciado na obra. “A estrutura narrativa é similar porque tem um narrador e ele faz pontes meio brincalhonas e fantasiosas entre o que ele fala e o assunto a seguir”.

Outra alusão feita pelo autor se dá com o trabalho do artista plástico brasileiro Juarez Machado. Quadros dele aparecem pendurados na parede do quarto de Amélie. O filme tem ainda, um uso muito intenso de cores, com destaque para tons de verde e vermelho. Segundo Madeira, trabalhar com esse contraste torna fácil dirigir o olhar do telespectador para aquilo que o diretor quer mostrar. Jeunet usa bastante planos detalhes e planos próximos, o que torna mais visível os detalhes da vida dos personagens, os objetos que compõe cada casa e as expressões faciais.

“É um filme muito cuidadoso, de muito detalhismo. Ele é quase um filme de miniaturas. Como se nós estivéssemos olhando uma grande maquete cheia de detalhes. Cada pequena aproximação vai nos trazer uma nova fatia desse universo”, finaliza.

Foto: Reprodução (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain).

Sinopse:
Quando criança, Amélie Poulain ficava nervosa com as raras aproximações de seu pai. As reações emocionais provocadas por essa situação levaram  o médico a cometer um erro de diagnóstico que comprometeu todo desenvolvimento interpessoal da personagem. Já adulta, Amélie (Audrey Tautou) muda-se para o bairro parisiense de Montmartre, e passa a trabalhar como garçonete. Certo dia ela encontra uma caixa escondida no banheiro de sua casa e, pensando que pertencesse ao antigo morador, decide procurá-lo para devolver o objeto. Nessa jornada a personagem faz descobertas que mudam completamente sua perspectiva de vida.

Ficha Técnica: 
Filme: Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain (Original).
Roteiro: Guillaume Laurant.
Lançamento: 8 de fevereiro de 2002 (Brasil) 25 de abril de 2001 (França).
Direção: Jean Pierre Jeunet.
Duração: 2h 1min.
Gênero: comédia, romance.
País de origem: França.
Prêmios: indicações ao Oscar (2002) por Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Direção de Arte, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Original e Melhor Som. Globo de Ouro (2002) indicado como Melhor Filme Estrangeiro. BAFTA (2002) ganhou nas categorias Melhor Roteiro Original e Melhor Cenografia. Outras indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor – Jean-Pierre Jeunet, Melhor Atriz – Audrey Tautou, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Fotografia, Melhor Trilha Sonora e Melhor Edição. CÉSAR (2002) levou o prêmio de Melhor Filme,Melhor Diretor – Jean-Pierre Jeunet, Melhor Trilha Sonora e Melhor Cenografia. Outras indicações: Melhor Atriz – Audrey Tautou, Melhor Ator Coadjuvante – Rufus, Melhor Ator Coadjuvante – Jamel Debbouze, Melhor Atriz Coadjuvante – Isabelle Nanty, Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Roteiro, Melhor Som e Melhor Edição. Ganhador do Prêmio do Público do Festival de Toronto (2002) e o Prêmio da Audiência do Festival de Edimburgo (2002).
Fontes: Adoro Cinema; Cinema em cena; Cinema como você vê; fãs da psicanálise; Glauco Madeira de Toledo (Unimep).

 

Arlete Moraes

Arlete Moraes Coluna

Jornalista, apaixonada por boas histórias, acredito que a arte nos inspira, faz refletir e torna a vida mais interessante!

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