O pote de pão de queijo

Lucila Tonelli mais uma vez emociona ao trazer lembranças de sua infância

02/04/2019 | 15:20
Última atualização: 02/04/2019 | 14:43

Foto: Banco de imagens (Pixabay)

Dia desses quando comentei com as amigas em um grupo do WhatsApp que estava assando pão de queijo para comer no dia seguinte no café da manhã, houve alguns protestos e fui taxada de esquisita. Assim, no maior julgamento mesmo, porque eu e minhas amigas temos esse nível de intimidade, onde vale chamar de esquisita e o amor permanece intacto.

Expliquei que gosto de comer pão de queijo murcho. Confesso que nessa hora até eu me senti esquisita. As amigas até tentaram um debate sobre as propriedades de um pão de queijo quentinho com café e tal, mas a verdade é que pra mim é saboroso um pão de queijo amanhecido, borrachento e frio, com café. Mais emojis chocados, algumas risadas e, enfim, mudamos de assunto. Ok, acabou o dia, dormi, acordei.

E fui comer meu pão de queijo frio. E murcho, borrachento e amanhecido. E na primeira mordida me veio uma memória de infância onde eu devia ter uns sete anos, e minha mãe fazia pão de queijo caseiro pra nós.

Eu sou uma privilegiada, dessas que a mãe pôde escolher parar de trabalhar para se dedicar à infância dos filhos. Numa época sem internet, mesmo com três filhos, ainda lhe sobrava tempo pra se aventurar na cozinha. Ela fazia de tudo em casa, queijo, pão de queijo, bolo (em formato de castelo a guarda chuva, dependendo do aniversário), e até licor de jabuticaba, entre muitas outras coisas.

Uma mordida no pão de queijo e eu lembrei da cor do chão da cozinha, do quintal onde tinha pés de pimenta, do quartinho que a gente era proibida de entrar, pois meu pai mantinha material de trabalho lá, dos enfeites na parede do quarto e, principalmente, do pote onde minha mãe guardava os pães de queijo.

Éramos uma família de cinco pessoas. Ela não fazia UM pão de queijo pra cada um. Ela fazia uma receita de incontáveis pães de queijo, que, óbvio, sobravam para os dias seguintes. E aí ela guardava naquele pote branco, fosco, redondo, tão grande que tinha que ficar em cima da mesa, que tinha uma tampa que fazia um click quando abria, e era chatinha de fechar. O pote de pão de queijo mais cheio de amor do Brasil.

Contei pra minha mãe, e juntas lembramos mais coisas ainda daquela época. Memórias boas e ruins, como toda fase da vida tem. Lembramos inclusive que o pote permaneceu na família por muitos anos, e depois que ela voltou a trabalhar e não havia mais tanto tempo para peripécias culinárias, o pote foi destinado a abrigar a ração da nossa cachorrinha, e portanto seguiu sendo usado com amor.

Contei para as amigas também, que pararam de achar que eu sou esquisita, ufa.

Então comecei a pensar em quantos hábitos será que eu tenho na idade adulta, que me ajudam a trazer um pouquinho de outras épocas da vida comigo. O que mais será que tem dentro do meu pote de pão de queijo, que eu nem me dou conta que uso de vez em quando pra ativar alguma memória afetiva? Vocês podem imaginar que eu como pão de queijo murcho há anos, mas, sem o empurrãozinho da amigas, talvez jamais soubesse porquê. Eu já li algumas vezes que os nossos sentidos são essenciais na ativação das memórias, então, deve haver cheiros, visões, toques e músicas também que me remetam a outra épocas.

E o que será que meus sentidos fazem pra me proteger das memórias indesejadas? Qual será a sequência de escolhas que me faz evitar um lançamento a épocas que não foram tão felizes, ou que apresentaram mais dificuldades? Será por isso que eu não consigo gostar de açaí, por mais que eu tente e insista?

Bom, eu imagino que você deva ter um pote de pão de queijo também, ainda que metafórico, cheio de memórias afetivas quentinhas e saborosas, mesmo que comecem murchas e amanhecidas. Deve ter aquela comida que só de sentir o cheiro, você lembra de alguém que já se foi. Deve ter uma música que você sabe cantar até hoje, porque dançou na garagem de alguém, torcendo pra não ser interrompida e ter que dançar com a vassoura (alou anos 80!). Deve ter aquela paisagem, que só de olhar você se recorda de várias férias e suas aventuras. Eu convido você a revisitar esse tempos:

O que tem dentro do seu pote?

Lucila Tonelli

Lucila Tonelli

Cientista social formada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), coordenadora do CCAA Piracicaba, apaixonada por café, livros e bons momentos com os amigos.

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