‘O mais difícil foi perder os cabelos’, diz Andrea Mesquita

Diagnosticada por duas vezes com câncer, a jornalista divide com os leitores do PIRADIGITAL toda a sua história, com desfecho feliz.

08/10/2017 | 12:30
Última atualização: 08/10/2017 | 11:31

Foto: Arquivo pessoal

“É preciso que as mulheres se cuidem mais”, alerta a jornalista Andrea Ferraz Mesquita, de 45 anos, sobre o câncer de mama. Entre 2003 e 2008, a profissional, que vive em Piracicaba (SP), foi vítima da doença por duas vezes e, atualmente, trabalha de forma voluntária para ajudar outras mulheres a descobrir e enfrentar o problema.

Por isto, no mês em que acontece diversas ações que estimula a participação da população no controle do câncer de mama, o PIRADIGITAL foi atrás de uma história feliz. Afinal, não há nada melhor do que contar casos de sucesso.

Dados
De acordo com a assessoria da Secretaria Municipal da Saúde, do total de óbitos de mulheres entre 15 a 69 anos na cidade, o câncer de mama é a principal causa de morte. Passou de 12% em 2015, para 18% em 2016, segundo dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). Em segundo lugar vem o câncer de pulmão, seguido do de colon (intestino) e de pâncreas.

Na opinião de Andréa, para diminuir os casos de câncer na cidade e no Brasil é necessário  que as mulheres e a saúde pública invistam em prevenção. “Mulheres se preocupam com o cabelo, as unhas, a academia, mas não encontram tempo para fazer a mamografia. Muitas não a fazem por medo de aparecer algo, outras por descaso mesmo. Claro que também há o problema da demora de exames no serviço público de saúde. Então, basicamente, é preciso que as mulheres se cuidem mais e que a saúde pública dê mais atenção à saúde feminina”, comenta.

Descoberta
Andréa descobriu a doença da primeira vez em 2003, quando estava com 31 anos. O alerta veio quando percebeu que estava vazando um líquido escuro de um dos seios. Segundo ela, o médico achou que era uma displasia, mas pediu um exame mais específico para investigar o problema.

“Descobriu então que eu tinha micro cristais no seio direito e um desses micro cristais entrou no ducto mamário, machucando. O líquido escuro era sangue. Não tive nódulo, por isso nem dava para se imaginar que era câncer”, relata sobre o começo do problema.

A jornalista escrevia sobre temas relacionados a saúde e ficou preocupada quando o médico resolveu antecipar a consulta para examiná-la. O encontro estava marcado para dali dois dias, mas o especialista solicitou que ela viesse no mesmo momento em que marcava o atendimento.

“Ao entrar na sala eu já disse que sabia que era grave. Chorei muito ao receber o diagnóstico. Estava sozinha em Araraquara (SP), onde morava, e não sabia como contar aos meus pais aquilo. Perguntei quais eram as chances e o médico disse que naquele estágio era 90% de cura. Então me acalmei, e no dia seguinte já estava fazendo novos exames e pensando que ia sair daquela”, relembra.

Como já escrevia sobre assuntos ligados a saúde, ela possuía muitas informações a respeito da doença. Isso a ajudou a não entrar em pânico com o diagnóstico. “Sempre tratei o assunto de maneira muito transparente e nunca usei de sinônimos como ‘aquela doença’, ‘o problema’ para me referir ao câncer. Inclusive falei aos meus pais que não queria esse tipo de eufemismo, era câncer e pronto, precisava enfrentar a situação”, relembra.

Para Andrea, o mais difícil foi perder os cabelos/Foto: Andrea Mesquita (arquivo pessoal)

 

‘O mais difícil foi perder os cabelos’
O primeiro tratamento reuniu três cirurgias e 33 sessões de radioterapia, não sendo necessário realizar mastectomia (cirurgia para excisão ou redução total da mama) e nem uma cirurgia plástica. Já no segundo caso, que ocorreu em 2008, a jornalista passou por oito cirurgias – entre elas uma mastectomia radical- e dez sessões de braquiterapia  (uma radioterapia com cateteres) e quatro sessões de quimioterapia. Todos os procedimentos foram feitos no seio direito.

“O mais difícil foi perder os cabelos. Chorei todos os dias, desde o diagnóstico até raspar a cabeça, quando pensava que ficaria careca. No dia em que isso aconteceu, acabei ficando aliviada, até porque fiquei linda! Por isso, que eu detesto quando alguém fala ‘cabelo é o de menos’. De menos para quem não vai passar por isso”, desabafa.

Jornalista realizou o sonho de conhecer o Egito em 2010/Foto: Andrea Mesquita (arquivo pessoal)

 

‘Eu não vou morrer disso’
Na descoberta do segundo caso de câncer as chances de cura eram de 50% e a doença já estava no terceiro estágio. A profissional descobriu a volta do problema por meio de exames de controle. Não foi um período fácil, já que ela precisou voltar para o tratamento. Na primeira sessão de quimioterapia, disse a médica que não queria fazer mais, porque havia passado muito mal na primeira sessão.

Na ocasião, a médica disse que se ela não fizesse o tratamento não ficaria curada. Embora Andréa já tivesse feito a mastectomia e não havia nada que indicasse uma metástase (as chances de cura nessa etapa já eram maiores), ela voltou atrás, pensaou melhor e viu que não valia a pena abandonar os cuidados, já que a possibilidade de cura era palpável.

“Quando o médico disse que o câncer havia voltado, primeiro eu chorei muito porque sabia que o caso era grave, mas logo parei e disse: ‘eu não vou morrer disso’. Ele perguntou: ‘como pode ter tanta certeza?’. Respondi: ‘Porque ainda não conheci o Egito, e esse é o maior sonho da minha vida. Eu vou realizar esse sonho’. E realmente realizei, em 2010”, comemora ela.

Andrea criou um blog para falar da prevenção e o tratamento do câncer de mama/Foto: Andréa Mesquita (arquivo pessoal)

 

Aprendizado
O câncer trouxe sofrimento para Andréa, mas também ensinou coisas positivas. De acordo com ela, se tornar mais paciente com algumas situações e pessoas e avaliar o que realmente vale a pena foram alguns desses ganhos.

“Hoje, eu valorizo muito mais quem realmente merece valor e não perco mais meu tempo com pessoas que não merecem isso. Relevo muita coisa que antes eu não conseguia tolerar, mas ao mesmo tempo não fico mais dando murro em ponta de faca em relacionamentos – pessoais, profissionais e até mesmo familiares – que não me acrescentem algo positivo”, considera.

A jornalista teve alta definitiva em 2013, quando parou de tomar o medicamento Tamoxifeno. Atualmente ela leva uma vida normal como a das outras mulheres e apenas realiza exames e consultas duas vezes ao ano. Mas, diferentemente do que se podia esperar, ela não deixou a experiência virar um tabu, preso ao passado. Resolveu ajudar outras pessoas a enxergarem que o diagnóstico da doença não é o fim e sim, é possível evitar o câncer.

Tudo começou quando a jornalista criou um blog para dividir as experiências do tratamento e do diagnóstico ao descobrir a doença. Um dia ela recebeu um convite para participar de um evento sobre câncer de mama para 200 pessoas.

“Isso foi no começo de 2009, uma sexta-feira, eu novamente seria operada na segunda seguinte. Mas fui, com a cara e a coragem. Nunca tinha feito isso. E vi que podia fazer sempre que possível, aonde me chamassem. É uma maneira de agradecer minha cura e ao mesmo tempo mostrar que nem sempre o diagnóstico do câncer significa morte. Se em cada palestra ou evento que vou apenas uma mulher passar a se cuidar melhor pelo que falei, já acho que estou fazendo minha parte”, finaliza.

Andréa durante palestra em Hortolândia/Foto: Andréa Mesquita (arquivo pessoal)

 

Arlete Moraes

Jornalista | PIRADIGITAL | arlete@piradigital.com.br

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