“Fazer música é acolher…”

Articulista Luis Fernando Dutra conta mais uma de suas aventuras musicais.

26/09/2018 | 09:23
Última atualização: 26/09/2018 | 09:23

Foto: Banco de imagens (Pixabay)

Mais uma quarta-feira e mais um texto para a nossa coluna PiraMusical. E que delícia ainda poder sentir todas as emoções que o texto anterior produziu e continua produzindo. Desde a semana passada tenho recebido comentários de amigos se dizendo emocionados também, pois com a leitura da nossa coluna puderam relembrar vários fatos e também amizades que conquistaram por meio da música. Infelizmente não tenho como citar o nome de todos os amigos que pude reencontrar e retomar contato através do texto que foi o responsável por reconectar uma grande rede de amigos.

Como escrevi na semana passada, a música me levou a diversos lugares e em todos estes lugares conheci pessoas incríveis. Algumas destas pessoas eu só encontrava uma vez por ano em algum festival ou curso de férias, mas isso não nos tornava menos amigos. O clima nestes encontros eram sempre de união, amizade, respeito, carinho e cuidado. E sempre que falo sobre isso, me lembro de uma família muito especial que me conquistou desde o primeiro contato. Em uma das minhas viagens a Curitiba, fui escalado para me sentar na segunda estante dos primeiros violinos, bem próximo ao “Spalla” ( que na hierarquia da orquestra é o instrumentista principal, sendo o músico no qual o Maestro sempre se apoia musicalmente ).

Nesta ocasião o Spalla era o jovem e talentosíssimo Luis Gustavo Surgik, que atualmente tem uma carreira brilhante na Alemanha, depois de vários anos estudando na Rússia. Era a primeira vez que eu estava tocando numa orquestra formada por músicos vindos dos mais diversos pontos do país e era muito natural que eu ficasse acanhado, pois só havia tocado na Orquestra da EMPEM.

Logo no primeiro ensaio, o Gustavo já se mostrou um violinista incrível, tocando com uma enorme segurança e uma sonoridade que me deixava de queixo caído. Além de ser o Spalla da Orquestra, sempre tocava nos recitais que eram realizados a noite. Cada recital era um repertório diferente com obras que exigiam grande domínio técnico e musical do violino, coisas que o Gustavo tem de sobra. Ele era ovacionado a cada peça que tocava, todos ficavam impressionados. Com tudo isso, seria muito normal se ele fosse uma pessoa “esnobe”, pois ele estava num patamar muito mais alto do que o meu, que era apenas um jovem violinista em busca de aperfeiçoamento.

Ele foi exatamente o contrário disso, com uma enorme humildade e um coração gigantesco, logo se tornou um grande amigo e com o passar do tempo, com minhas inúmeras idas à Curitiba, ele se tornou um irmão. E quando digo irmão, não estou dizendo numa forma figurada, eu fui realmente adotado pela família Surgik logo na segunda vez em que fui fazer o Oficina de Música.

Como apenas 15 dias de convivência e centenas de cartas trocadas durante o ano, nasceu uma afinidade muito grande e todas as vezes em que eu ia para lá, ficava hospedado na casa deles. Eu tinha lá em Curitiba uma outra família, que abria mão de muitos momentos de descanso e lazer, pois isso era sempre no mês de Janeiro, quando eles podiam aproveitar as férias para passear e descansar. Na primeira vez só eu fiquei na casa deles, convivendo com pessoas incríveis, me divertindo com as conversas, os trocadilhos e os churrascos do saudoso Sr. Aloísio Surgik, pai do Gustavo, grande advogado e professor de Direito Romano, sentindo todo o carinho e saboreando as deliciosas comidas preparadas pela D. Ana, minha mãe curitibana e claro, dando muitas risadas com o Gustavo, a Zuza ( Ana Carolina ) e a Anuta ( Ana Helena ).

Todos os nossos momentos juntos eram verdadeiras festas. A partir do ano seguinte a hospedagem começou a ficar maior, pois vários dos meus amigos também se tornaram amigos da família Surgik. Me lembro de um ano em que aproximadamente 15 jovens estudantes de música ficaram hospedados na “Pensão Surgik”. Era gente espalhada pela sala de jantar, quartos e até mesmo na preciosíssima biblioteca do Sr. Aloísio, na qual tinham alguns livros raros, um deles sendo o último exemplar no mundo.

Todos os anos esta cena se repetia, a família abria mão das férias para receber aquela turma que vinha de São Paulo, Piracicaba, Santos e Sorocaba. Nunca víamos os nossos anfitriões de mau humor ou com qualquer sinal de aborrecimento com aquela bagunça que deixávamos na casa ou até mesmo com alguns detalhes, me lembro que o chuveiro da casa era aquecido a gás, e a D. Ana ficava na porta do banheiro perguntando se a temperatura estava boa e quando a resposta era negativa, ela corria até a central para regular a chama  e deixar  a temperatura certa para cada um de nós . Nos recebiam como pessoas da família, dando muita atenção, carinho e cuidado.

Cada um de nós tinha uma personalidade diferente, costumes diferentes, culturas diferentes e isso nunca foi motivo para tratamentos diferentes. Todos tinham espaço no coração de todos e em todos os anos em que nos encontrávamos, nunca existiu uma briga ou uma mínima discussão sobre algum assunto, mesmo quando havia diferença de opiniões. Éramos uma orquestra, um conjunto de pessoas diferentes em busca de algo positivo.

E quanto à Família Surgik, era uma família em que a música era mais do que um simples entretenimento. Por ser muito musicalizada, sabe acolher as diferenças com amor, carinho e respeito. Não se preocupa somente com as pessoas que fazem parte da sua família de sangue mas continua acolhendo pessoas que precisam deste amor até hoje.

Tocar ou cantar é acolher, é sentir junto. Quando subo no palco para um concerto ou preparo um programa na rádio, estou levando música para pessoas alegres, tristes, solitárias, acompanhadas…estou convidando estas pessoas para entrarem nesta grande família que é a música, e como dizia o Artur da Távola: “Quem tem música jamais padecerá de solidão”.

Que tal fazer o exercício do acolhimento em nosso dia a dia ? Não precisa ser no sentido da hospedagem, mas sim na atenção, carinho e cuidado. Todos nós temos um papel muito importante nesta grande orquestra da vida. Cuidemos de todas as pessoas que convivem conosco e até mesmo daquelas pessoas que não conhecemos. Além da música, o amor também é uma linguagem universal e usando bem estas duas ferramentas, podemos promover um grande Concerto da humanidade.

Musicalize-se !!

Se quiser um momento para ouvir boa música e recuperar energias para enfrentar a semana, acompanhe o programa “Opus 105,9”, todos os Domingos, das 20 às 21:30h pela Rádio Educativa FM de Piracicaba – 105,9 e o programa “Clássicos ao Cair da Noite”, todos os Domingos, das 21 às 22h pela Rádio Educadora AM de Piracicaba – 1060.

Uma ótima quarta-feira e uma semana repleta de música a todos.

 

Luis Fernando F. Dutra

Luis Fernando F. Dutra

Luís Fernando F. Dutra é violinista, professor e maestro | Whatsapp : (19)99816-0509 | E-mail : luisfernandofischerdutra@gmail.com | Facebook : www.facebook.com/profile.php?id=100011059385474

PIRADIGITAL © 2017 Todos os direitos reservados