A difícil e enriquecedora tarefa de se colocar no lugar do outro…

Empatia: capacidade de compreender a visão e a postura do próximo. Você, tem empatia? Confira o que diz Lucila Tonelli sobre a arte de ver o mundo com os olhos dos outros.

01/12/2017 | 14:30
Última atualização: 01/12/2017 | 15:31

Foto: Banco de imagens (Pixabay)

Uma das coisas que mais ouvimos nos dias de hoje é que precisamos ter empatia. Ô palavrinha…

Eu, que tenho sol e lua em sagitário, já sou simpática (e modesta) por natureza. Não basta simpatia? Precisa ter empatia? Ser simpática (e, reiterando, modesta) me rende muito bons relacionamentos. É mais fácil ser simpática do que antipática. É mais fácil agilizar a vida na simpatia do que na arrogância. Tem sempre alguém querendo ajudar uma pessoa simpática. Quase nunca queremos ajudar aquela pessoa mal humorada. Inclusive fui regida por esse tipo de pensamento muitas vezes, enquanto ainda achava que essas duas palavras tinham parentesco.

E é aí que está o engano. Não é isso não. De acordo com o dicionário, simpatia  é “afinidade moral, similitude no sentir e no pensar que aproxima duas ou mais pessoas”. É aquele sentimento de alegria quando você descobre que tal pessoa vai estar presente no evento, porque ela é simpática, e as coisas são leves ao redor dela. É você se referir a alguém com um sorriso, porque, na sua opinião,  ela  é fácil de lidar, e  está sempre disposta a ajudar. É você não se importar de apresentar a amiga simpática a outros amigos, porque todo mundo vai gostar dela, certeza. Percebeu o elo? Simpatia é sobre como você se sente em relação a alguém.

Empatia é outra coisa. É o máximo da alteridade.  Empatia significa “a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo”. Mas preste bem atenção:  não é o que VOCÊ faria se estivesse na situação da outra pessoa. Não é tomar uma decisão baseada nas suas vivências, se estivesse na situação de tomar uma decisão como a outra pessoa tem que tomar. Não é usar o conjunto das suas experiências para julgar o comportamento ou a escolha das outras pessoas.

Empatia é difícil pra caramba. É das coisas mais difícies da vida. É você tentar compreender as vivências e experiências da outra pessoa, e aceitar que as escolhas e decisões que a pessoa faz estão legitimadas por esse contexto, e aquilo faz sentido no universo dessa pessoa. Por mais que não faça sentido pra você. É você aceitar que aquela é uma escolha que você nunca faria, mas a outra pessoa não poderia fazer uma escolha diferente. É conviver, sem revolta, com o fato de que aquela pessoa faz uma escolha diferente da sua, e ela não está errada. Mesmo se você, do alto da sua certeza, parecer certo.

Empatia é você aceitar que seu pai idoso recusa o tratamento contra a doença, pois pra ele faz mais sentido recusar do que tentar se tratar mais um pouco, sem achar que ele é doido e teimoso e ingrato. É aceitar que a tia não participa da festa de família, porque aquilo vai contra as coisas que ela acredita, sem achar que ela é chata e mimada. E acreditar que o colega de trabalho está bem intencionado, por mais que acredite que a ideia dele seja errada e sem noção. É não julgar a amiga, que fica balançada quando aquele “ex” canalha esboça uma retomada, mesmo sabendo o quanto ele a fez sofrer. É acolher a irmã que tem sentimentos ambíguos em relação às mudanças que estão por vir, porque mudanças são assustadoras, e ela não precisa de mais alguém questionando suas escolhas e sanidade. É não rir da amiga adulta que tem um medo irracional, como por exemplo, de borboleta. É não achar que os sentimentos da outra pessoa são frescura.

E como direcionar a empatia nos casos absurdos? Será que tem como eu compreender de fato o comportamento daquele cidadão que agrediu a namorada? Aquele articulador que acredita em meritocracia? Políticos que se baseiam em religião e estão pouco preocupados com o bem real da população? Corrupção em detrimento de gente que já tem pouco? Aquela socialite que cometeu crime de racismo na rede mundial? Qual o limite

Empatia não é pra qualquer um não. Empatia praticada ao pé da letra promoveria uma revolução do tipo que a humanidade ainda não está preparada pra viver. Será? Empatia posta em prática pode ser o tratamento contra os males da contemporaneidade, como depressão e ansiedade. Mas como se ensina empatia? Como se aprende isso? Eu tenho aqui pra mim que a desconstrução é diária. Sim, todo dia há alguma coisa que posso melhorar em mim para contribuir para um mundo melhor. Mas empatia? É das lições mais duras de aprender. É daquelas questões do vestibular tipo pegadinha.

Você acha que domina o assunto, mas aí você vai lendo as alternativas, e todas parecem verdade. É utopia. É impossível. Mas se é tão bom, não pode ser impossível, pode? Talvez seja. Mas, mesmo assim, creio que empatia seja uma das poucas coisas da vida que valham a pena continuar lutando para viver na prática.

Porque de uma certa forma, empatia e respeito são conceitos irmãos. Se um estiver presente, cabe o outro. Acredito que, como tudo na vida, a prática de exercer esses conceitos levará a perfeição de relacionamentos mais fáceis. Quanto mais respeito, mais empatia. E vice-versa.

Eu convido mais uma vez à reflexão: A quantas anda sua capacidade de empatia nessa época tão esquisita em que vivemos?

Lucila Tonelli

Lucila Tonelli

Cientista social formada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), coordenadora do CCAA Piracicaba, apaixonada por café, livros e bons momentos com os amigos.

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