“A Música tem o poder de unir. Quando tocamos em conjunto, as diferenças desaparecem”

O momento é de comemoração. Coluna de autoria de Luís Fernando Dutra completa um mês no PIRADIGITAL.

12/09/2018 | 11:00
Última atualização: 12/09/2018 | 10:11

Andreas Kisser, guitarrista da Banda Sepultura e Luís Fernando/Foto: Divulgação (Arquivo pessoa/Luís Fernando Dutra)

Olá prezado leitor, hoje completando um mês da coluna PiraMusical e comemorando esta marca. Tenho recebido vários comentários sobre as nossas publicações e fico muito feliz em saber que as pessoas tem gostado de ler e refletir um pouco mais sobre a música no dia a dia. Espero poder contribuir para a arte e para a vida das pessoas neste espaço tão precioso que me foi cedido pelos queridos amigos do PIRADIGITAL.

E quando falo em música no dia a dia vou além daquele som que fica tocando no rádio do carro, no ambiente de trabalho ou em qualquer outro lugar. Estamos vivendo uma época em que tudo está muito polarizado, dividido e tenho a absoluta certeza que isso não construirá nada de positivo. Basta darmos uma pequena olhada nas nossas redes sociais para ver como andam as relações de amizade, que muitas vezes são desfeitas pelo simples fato de terem diferenças de opiniões ou até mesmo, uma querer impor o seu pensamento sobre o outro.

Voltando à música, me lembro de uma época em que eu era completamente fechado em questão de preferência de estilo. Minha primeira grande paixão, foi a Música Clássica. Logo que comecei a estudar violino, também comecei a ouvir música com mais atenção, mas não me permitia ouvir estilos variados, ficava ouvindo somente a chamada Música Erudita, pois se ouvisse outro estilo, poderia comprometer meus estudos ou até mesmo, prejudicar a minha técnica. Durante muito tempo acordava de madrugada, por volta das 5h da manhã para ouvir os grandes clássicos. Meu café da manhã era Mozart, Beethoven, Brahms e tantos outros. Isso foi muito bom durante o período de estudos, pois me possibilitou conhecer muitas músicas, mas ao mesmo tempo foi prejudicial, pois na fase escolar eu me sentia um verdadeiro ET, pois nas rodas de conversas, quando o assunto era música, eu não conhecia quase nenhuma das mais ouvidas.

Os meus amigos mais próximos eram só os que também estudavam música e compartilhavam do mesmo gosto. Chegou um momento em que eu percebi que precisava ampliar um pouco os meus horizontes musicais e aos 14 anos, fui convidado a participar de um grupo muito conhecido em Piracicaba : o Falando da Vida. Nele passei a ter contato com uma outra linguagem musical e também com pessoas que gostavam dos mais variados estilos : mpb, rock, samba, sertanejo, seresta.

Fui me envolvendo tanto que comecei a aprender que não preciso viver somente com as pessoas que tem as mesmas preferências que eu. Para muitas pessoas, foi um choque me ver tocando em uma banda junto com bateria, guitarra, baixo elétrico, teclados, palco com iluminação colorida, fumaça e tudo o que um show deve ter. Recebi muitas críticas mas também tive gratas surpresas, pois pessoas que nunca tinham visto um violino puderam perceber que este instrumento também pode tocar todos os estilos.

Foi uma fase de muitas reflexões, tentando chegar a uma conclusão de como eu deveria conduzir minha carreira, se deveria optar por só tocar música clássica ou se deveria continuar tocando todos os estilos. Essa conclusão só veio a acontecer quando me mudei para São Paulo em 1992 e fiz um teste para ingressar na Orquestra Experimental de Repertório, que era uma orquestra do Teatro Municipal de São Paulo, regida pelo Maestro Jamil Maluf. Era um sonho tocar nesta Orquestra que eu sempre assistia pela TV Cultura.

Fui aprovado no teste e meu primeiro concerto foi no dia 23 de Maio de 1992. Tocamos a música “Os Planetas” de Gustav Holst ( aliás, fica aqui a sugestão para que todos ouçam esta música nesta semana, se possível bem acomodados em uma poltrona com ambiente à meia luz ou totalmente no escuro, para realmente viajar para os planetas ). Logo depois, tocamos a Ópera O Barbeiro de Sevilha de Rossini e veio a primeira surpresa : a OER foi a orquestra escolhida para uma série de concertos chamados “ARRANJADORES”. Nos apresentamos no saudoso Teatro Cultura Artística de São Paulo juntamente com grandes nomes da música, entre eles Eumir Deodato e Egberto Gismonti, e também arranjos maravilhosos de Rogério Duprat, Baden Powell, Lyrio Panicali, Léo Peracchi, Lindolpho Gaya. Foram noites muito especiais, onde 2 ou mais linguagens se misturavam numa harmonia incrível. Depois desta série, participei de outra série criada pelo Maestro Jamil Maluf chamada “Outros Sons”, que eram concertos com músicos de diversos estilos, destacando apenas alguns dos muitos que tive o prazer de tocar : Nana Vasconcelos, Gal Costa, Lenine, Wynton Marsalis e Lincoln Center Jazz Orchestra, Zizi Possi, Duda do Recife, Antônio de Nóbrega, Edson Cordeiro, Na Ozzetti e o mais radical de todos, SEPULTURA !!!

Em todos estes concertos, na primeira parte apresentamos obras tradicionais do repertório sinfônico e na segunda parte, o artista convidado se apresentava com a orquestra. Todos os concertos foram enorme sucesso e ajudaram na formação de platéia, pois quem gostava de ouvir a orquestra percebeu que ela também serve para tocar outros estilos e quem gostava de ouvir a música popular, pode perceber que a música clássico também é bonita e gostosa de ouvir.

Aqui faço questão de registrar que um dos grandes responsáveis por esta fusão de estilos foi o meu querido amigo e grande Maestro, Jamil Maluf. Ele foi considerado muito ousado quando nos anos 80, levou o músico Arrigo Barnabé para apresentar Clara Crocodilo no Teatro Municipal de São Paulo. Isso depois de enfrentar forte resistência do Secretário de Cultura e do diretor do TM, que achavam absurda a idéia. O que eles puderam ver neste espetáculo foi a casa completamente lotada e o público ovacionando os artistas no final, e isso se repetiu no ano de 2008, agora com a minha participação na Orquestra. Em 2011 o Maestro repetiu a ousadia e levou a Orquestra Experimental até o Bairro da Luz, em São Paulo, para tocar à Meia Noite com a Banda Sepultura, para uma platéia de aproximadamente 15 mil pessoas, formada por pessoas de todos os gostos musicais. Foi uma noite em que nenhuma ocorrência foi registrada, contrariando o que muita gente imaginava.

Música é isso !!! É soma, união, cooperação, respeito !!! Quando toco num conjunto, estou ali para trabalhar junto. Não importa se a pessoa ao meu lado é de esquerda ou direita, se é negra, amarela, parda, vermelha, se é homossexual ou heterossexual, se é pobre ou rica. É um ser humano que está ali ao meu lado para juntos produzirmos algo de bom e bonito, que tem como finalidade promover o bem. Numa orquestra, temos muitos instrumentos diferentes, partituras diferentes, com indicações diferentes, mas que somadas produzem algo magnífico. Seria ótimo se a sociedade fosse assim também, cada um fazendo a sua parte com respeito ao próximo, sem rótulos, preconceitos e discriminações. A sinfonia da vida soaria de forma maravilhosa. Que tal começarmos a compor essa sinfonia na nossa casa, na rua, no trabalho …?

Musicalize-se !!!

Se quiser um momento para ouvir boa música e recuperar energias para enfrentar a semana, acompanhe o programa “Opus 105,9”, todos os Domingos, das 20 às 21:30h pela Rádio Educativa FM de Piracicaba – 105,9 e o programa “Clássicos ao Cair da Noite”, todos os Domingos, das 21 às 22h pela Rádio Educadora AM de Piracicaba – 1060.

Uma ótima quarta-feira e uma semana repleta de música a todos.

Luis Fernando F. Dutra

Luis Fernando F. Dutra

Luís Fernando F. Dutra é violinista, professor e maestro | Whatsapp : (19)99816-0509 | E-mail : luisfernandofischerdutra@gmail.com | Facebook : www.facebook.com/profile.php?id=100011059385474

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