A generosidade e o abraço

A cientista social Lucila Tonelli fala sobre a virtude da generosidade, que vai além da honestidade, da integridade de caráter, do senso de dever. Ser generoso é fazer aquilo que você não tem o dever legal de fazer, mas faz mesmo assim para ajudar, para ver o outro mais feliz.

15/04/2017 | 08:32
Última atualização: 25/04/2017 | 18:18

Abraçar_Pixabay

Um dia uma amiga jornalista muito querida me pede pra escrever um texto. Eu, que amo as palavras, me interesso, mas sofro: um texto sobre o que? E então gastamos uns minutos falando sobre temas que possam me interessar: feminismo, empoderamento, educação, convivência, amizade…

Passo uns dias pensando nisso, sem concluir nada, mas um dia me acontece algo, e eu resolvo escrever sobre esse episódio, desses da vida real…

Entro no banheiro do barzinho e, de frente para o espelho está uma mulher, tentando secar as lágrimas Constrangida, porque as lágrimas eram impossíveis de ignorar por mim, a desconhecida que queria fazer xixi. De frente para ela, uma garota, a Vitória, de uns dez anos. Constrangida pela mãe estar constrangida.

Nunca vi aquelas duas.

Lágrimas me são impossíveis de ignorar. Sempre foram. Se tem alguém chorando, eu quero ajudar. Nunca vi aquelas duas, mas quero ajudar.

Pergunto: Está tudo bem? Mas já sei que não. Óbvio que não, ninguém que está bem vai chorar no banheiro do barzinho, acompanhada da filha. Antes da resposta, troco a pergunta: Precisa de alguma coisa? E ela diz, ainda constrangida “Não, obrigada”.

E então eu pergunto: Quer um abraço? E dois segundos de pausa e eu leio a mente dela: “Ooi? Abraço? nunca vi essa moça na vida… Ooi? Eu queria um abraço… acho que vou aceitar esse.” E abriu os braços e fez um meio sim com a cabeça, mas eu já estou abraçando. Abraço é algo que eu sei fazer. E distribuo. Porque acolho de verdade quando abraço. A ciência me acompanha:  abraços, mesmo aqueles de três segundos, já fazem a gente se sentir melhor. Mas eu dei um abraço nela de uns seis segundos. E apertado, pra ela saber que não estava sozinha, e que ia ficar tudo bem.

Largo o abraço e vou fazer xixi (banheiro de barzinho, né? Minha bexiga cheia de Original…)

Enquanto estou lá, me equilibrando, escuto a Vitória dizer: “Mãe, o papai é assim mesmo, você já devia saber… não precisa ficar assim” e a mãe explicando que, não é porque ele é assim, que ela precisa aceitar. Ela tem direito de achar horrível a grosseria dele.

Penso que elas deviam sair do banheiro antes de eu terminar o xixi, porque além de abraçar, palpitar é uma das coisas que eu faço bem na vida, e eu não vou resistir…

E quando abro a porta, a mãe já começa a se explicar, que o maior medo da filha é que um dia a mãe não aguente e se separe do pai. Imagino quantas vezes a Vitória já viu a mãe chorar.

Puxa… eu queria tanto palpitar na vida da mãe…dizer pra ela que ela não precisa aguentar não. Que ele pode pegar a grosseria dele e ir viver sozinho… Mas ela só olhava pro chão.  Mas quem olhava pra mim era a garota. Dona da sua incerteza. Acreditando que a mãe sabia com quem era casada e por isso tinha que aceitar o fardo. E achando que a vida é assim. Mas sabendo que a mãe não merecia ficar chorando em banheiro. E me olhando como quem espera um vislumbre de que não, a vida não é assim.

Pergunto o nome dela – Vitória , como se coubesse outro – e conto pra ela que meus pais são separados. E que o processo foi dolorido, mas ficou todo mundo melhor depois da separação. Que separação não é o fim do mundo. Que talvez o pai dela nunca mudasse. Que talvez a mãe se acostumasse à grosseria, mas que elas não eram obrigadas a se acostumar. Que tudo que a mãe queria era um mundo melhor, e ela tinha todo direito de chorar enquanto o mundo não fosse melhor. Porque a Vitória ia viver nesse mundo. E a Vitória merecia um mundo melhor.

E a mãe entendeu que estávamos (estamos!) no mesmo barco. E nossos argumentos eram os mesmos. E a Vitória estava compreendendo.

Toda essa cena não levou mais do que 15 minutos. E quando a Vitória disse “Obrigada, moça, você ajudou a melhorar o meu dia. Me dá um abraço também?” eu tive certeza que não há tempo pra perder. Que toda vez que eu tiver oportunidade de melhorar o dia de alguém, eu devo fazer isso. Porque, se lá no finalzinho, eu conseguir promover a melhora de um dia, com algumas palavras, então o mundo será melhor. Abracei a mãe e a Vitória, que ainda disse que eu era muito bonita, e que queria um cabelo igual ao meu. (Hein??)

Quando minha amiga me pediu pra escrever um texto, eu disse que sim, e ficamos escolhendo um tema, mas mal sabia eu que o tema ia se apresentar sozinho. O tema é  generosidade . Que eu consiga sempre ser generosa e que a generosidade seja contagiante.

E que ela seja o combustível para o motor que faz o mundo girar melhor!

Lucila Tonelli

Lucila Tonelli

Cientista social formada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), coordenadora do CCAA Piracicaba, apaixonada por café, livros e bons momentos com os amigos.

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