56 anos de Bonequinha de luxo: por que o amor livre e a liberdade sexual continuam tabus para as mulheres?

No dia em que o clássico Bonequinha de luxo completa 56 anos no Brasil, a jornalista Arlete Moraes fala sobre tabus e a produção que definiu o glamour nos anos 60.

13/11/2017 | 08:00
Última atualização: 05/09/2018 | 09:30

Foto: Divulgação (Filme "Bonequinha de Luxo")

Lançado em 4 de outubro de 1961 nos Estados  Unidos e em 13 de novembro do mesmo ano no Brasil, o clássico Breakfast at Tiffany’s, ou ‘Bonequinha de Luxo’ em português, inspirado na obra do jornalista Truman Capote e com direção de Blake Edwards, completa 56 anos hoje. Da época em que foi lançado até os dias atuais, o mundo já mudou muito. Mesmo assim, temas que causaram alvoroço nos anos 60, como o amor livre e a liberdade sexual feminina- ambos reportados na trama (ainda que de forma velada) – continuam a ser motivo de espanto e consternação para muitas pessoas.

É inegável que o passar dos anos trouxe avanços para temas considerados ‘espinhosos’ na época em que o filme foi lançado, mesmo assim, felizmente ou infelizmente, a estória se mantém atual ao lançar questionamentos que as mulheres no século XXI ainda esquivam-se em fazer. Aí está atemporalidade da obra e sua importância para as futuras gerações de telespectadores.

É claro que, dentro do contexto atual, onde existem – ainda que fragilizados por dominações de poder, tanto moral quanto conservador – esforços para a aceitação de temas como a liberdade de gênero, sexo, escolha, entre tantas outras necessidades afetivas humanas que surgem a cada dia,  a trama de Bonequinha de Luxo pode parecer despretensiosa ou até mesmo ingênua.

Isso se deve, em grande parte, ao carácter conservador da época. Costumes e modos de pensar impunham certos limites a temas do tipo. Para colocar o filme nas telonas adaptações foram feitas para que o roteiro não se mostrassem tão denso e emblemático como, certamente, eram as páginas escritas por Capote. Detalhes foram ocultados em nome da moral e até da imagem da própria Audrey Hepburn, que acabara de ser mãe e receava quanto a ideia que a interpretação da personagem de Holly Golightly passaria sobre ela. Salvo todas as alterações, ainda que de forma superficial, o filme marca presença na discussão sobre a evolução do comportamento feminino no século XX até os dias atuais.

Muito de seu sucesso está ligado ao talento e genialidade de Audrey Hepburn. A atriz belga trouxe ao personagem o requinte, a elegância e o carisma que levaram Holly a conquistar o coração do público e permanecer imaculada no imaginário deste por tantas gerações. Tão incrível foi o casamento entre atriz e personagem que fica impossível imaginar o mesmo papel sendo representado por Marilyn Monroe, como era o desejo do jornalista e autor da obra.

Audrey Hepburn em cena de ‘Bonequinha de Luxo’/Foto: Divulgação (Filme “Bonequinha de Luxo”)

Outro detalhe que torna a estória um clássico é a canção Moon River, composta por Henry Mancini para Audrey cantar no filme. A música que já foi interpretada por Frank Sinatra e ganhou Oscar de Melhor Trilha Sonora Original em 1962, eternizou a cena em que Holly observa a vitrine da joalheria Tiffany – que dá nome ao filme- enquanto toma seu café da manhã, no início da trama. Não é necessário ressaltar o famoso “pretinho básico” do estilista francês Hubert de Givenchy, tantas vezes mencionado ao se abordar o clássico.

Em meio a graciosidade e suavidade com que Audrey interpretou o papel, a estória da interiorana que vai para Manhattan em busca de uma vida moderna, fugindo do apego amoroso e de um relacionamento tradicional, mas se torna uma garota de programa de luxo que sonha em encontrar um marido rico que a sustente, parece mais tragável para os moralistas de plantão.

O filme cumpre seu papel ao chamar para o diálogo os vários tipos de opinião. Holly é um desses personagens que fazem com que nos aprofundemos em sua estória e – se não somos capazes de compreender – pelo menos não ficarmos indiferentes ao profundo desamparo da personagem, escondido sob uma aparente futilidade. É um personagem de muitas facetas, de vários nuances, de grande complexidade por trás de sua aparente superficialidade.

Assim como muitas de nós, ela não se enquadra no perfil considerado distinto na década de 60. Na verdade, nos dias atuais Holly também não seria vista com bons olhos, pois ela não está interessada em uma união romântica ou em discussões feministas. Em verdade, ela transita entre muitas possibilidades, fazendo com que o público a todo momento mude sua opinião a cerca do que ela representa. Holly é um desses personagens que não nasceram para nos dar certezas sobre os nossos muitos questionamentos, mas para lançar dúvidas. É uma dessas ‘mulheres’ que provocam o imaginário feminino e nos fazem pensar: Afinal, porque o amor livre e a liberdade sexual ainda são tabus para as mulheres?

Famoso pretinho básico de Givenchy/Foto: Divulgação (Filme “Bonequinha de Luxo”)

Sinopse:
Holly Golightly é uma jovem do interior que deixa a família em busca do sonho de ser rica e ter uma vida moderna e “livre” em Nova York. Ao chegar na cidade, entretanto, ela se torna uma garota de programa de luxo que sonha em encontrar um milionário com quem possa se casar e assim conseguir conforto, boa vida e os diamantes que admira na Joalheria da Tiffany. Apesar de parecer fútil, a vida e os interesses da senhorita Golightly sofrem uma reviravolta quando ela conhece Paul Varjak (George Peppard), um escritor sustentado pela sua amante, que se muda para um apartamento próximo ao dela. Crítica social, romance, drama e comédia tornam o clássico um filme indispensável para entendermos as muitas facetas da mulher moderna.

Ficha Técnica: 
Filme: Breakfast at Tiffany’s (Original).
Roteiro: inspirado no livro de Truman Capote.
Lançamento: 13 de novembro de 1961 (Brasil).
Direção: Blake Edwards.
Duração: 114 minutos.
Gênero: comédia, drama, romance.
País de origem: EUA.
Classificação: livre.
Figurino: Hubert de Givenchy.
Prêmios: óscar de melhor trilha sonora original para a canção Moon River de autoria de Henry Mancini; indicação ao óscar de melhor atriz para Audrey Hepburn (1962); Prêmio David di Donatello de Melhor Atriz Estrangeira para Audrey Hepburn (1962) e Prêmio Writers Guild of America Award de Melhor Roteiro de Comédia Norte-americano (1962).
Para saber mais: Fifth Avenue, 5 A.M.: Audrey Hepburn, Breakfast at Tiffany’s, and the Dawn of the Modern Woman (Quinta Avenida, 5 da manhã – Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo e o surgimento da mulher moderna) autor: Sam Wasson.
Fontes: Blog ‘Sublime Irrealidade‘, estadão.

Cena em que Holly  interpreta Moon River/Foto: Divulgação (Filme “Bonequinha de Luxo”)
Arlete Moraes

Arlete Moraes Coluna

Jornalista, apaixonada por boas histórias, acredito que a arte nos inspira, faz refletir e torna a vida mais interessante!

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