‘Investigativo não significa denúncia’, critica Caco Barcellos

Jornalista falou ao PIRADIGITAL antes de ministrar a palestra “Superando desafios: o verdadeiro valor da vida”, no Senac, neste sábado (18).

19/08/2018 | 11:30
Última atualização: 19/08/2018 | 20:55

Foto: Reprodução TV Globo.

Antes de ministrar a palestra “Superando desafios: o verdadeiro valor da vida” na abertura do Casa Aberta – realizado pelo Senac, em Piracicaba (SP) neste sábado (18 de agosto) – o jornalista Caco Barcellos reservou um tempo para responder as perguntas da imprensa. Bem-humorado e esbanjando simpatia, o “mentor” do Profissão Repórter (da TV Globo) falou sobre o jornalismo em que acredita e o que procura transmitir por meio do programa que está no ar há 11 anos. A conversa aconteceu em uma sala reservada enquanto Caco tomava café da manhã.

Ao ser perguntado pela reportagem do PIRADIGITAL sobre quais temas o jornalismo investigativo deveria se debruçar, o experiente repórter e autor de cinco livros, deixou  a xícara de café de lado e se inclinou para responder com uma certa seriedade no olhar: “Primeiro eu preciso te dizer – não sei se todo mundo pensa assim, mas eu penso – investigativo não significa denúncia. Acho que toda a ação nossa deve ser investigativa. De qualquer repórter, de qualquer matéria”, explicou.

Em seguida, completou: “Nós [o Profissão Repórter] fazemos muito trabalho investigativo elogiando pessoas: um grande show, uma matéria de comportamento, estamos lá apurando ao máximo, investigando. Então em primeiro lugar isso”.

A ressalva é porque, de acordo com Barcellos, no Brasil atualmente as pessoas confundem investigação com denúncia, principalmente quando se está culpando alguém. “Investigação é Lava Jato e a Lava Jato nem é trabalho da imprensa. É o trabalho de um promotor. Ele faz a apuração dele. A gente pode checar ou não aquilo lá, reproduzir com investigação nossa, mas isso dificilmente se faz. É só uma republicação do dossiê do promotor. Está longe de ser investigativo. […] Então, só para diferenciar bem: no nosso critério a investigação é tudo. É o jornalismo ativo. Nós achamos que o nosso dever é de apurar muito qualquer história”.

Ainda sobre o Profissão, Caco abordou os bastidores do programa que divide com jornalistas recém-formadas e sem nenhuma experiência anterior em televisão (esse detalhe, aliás, como esclareceu o repórter mais tarde, durante a palestra, é essencial na hora de selecionar os participantes).

“O nosso tripé é a academia. Tudo o que é pesquisa, especialistas do Brasil e do mundo são a nossa base. E o tripé se forma com a apuração na rua, a que nós achamos o mais importante de tudo. Nós vamos provar que aquela tese é verdadeira. Sendo verdadeira, vai para nossa reflexão, nosso roteiro. O que é o resultado então do tripé vira a nossa notícia”.

A seleção das matérias que vão ar no programa, segundo o jornalista, se dá pela observação de tudo o que acontece ao redor dos jovens repórteres. Nisso cabe uma faixa, uma bandeira ou um cartaz de manifestação. O que está na rua deve sempre nortear a pauta. São exemplos disso protestos por educação de qualidade ou contra violência e as pesquisas que mostram o que o brasileiro está pensando, o que ele deseja. “Não é o que o governo quer. Não é o que a empresa que você trabalha quer”, diz ele sobre a sua cobertura e a dos colegas.

Foto: Reprodução TV Globo.

O que é Pauta?
Segundo Barcellos, o Profissão procura seguir o padrão da TV inglesa BBC. “E o que seria uma pauta para a BBC?” questiona ele enquanto observa em volta. Ele conta então uma história que, para ele, é a síntese de uma postura editorial bacana. Enquanto morava na Inglaterra, Barcellos viu um protesto de jornalistas acontecer em frente a emissora britânica. Apesar da manifestação, a televisão não realizou nenhuma reportagem.

Do protesto participavam um grupo de repórteres  que sugeriram uma pauta para pedir colaboração da sociedade com a causa da Palestina que estava sendo atacada por Israel. O confronto havia deixado muita gente sem casa. Então fazia-se campanha para reconstruir os lares destruídos por Israel.

“A princípio uma iniciativa nobre, de ajudar um povo que é muito perseguido. […] Mas,  para a BBC era uma iniciativa de um grupo de repórteres. Quem são vocês para sugerir pauta? quem sugere pauta é o povo da rua. Não estou vendo palestinos exigindo isso aqui. Não estou vendo a sociedade britânica exigindo isso. É meia dúzia. Isso não entra aqui. Bom, ai o os repórteres, que estavam sendo censurados, foram para as redes sociais, provocaram uma grande manifestação e fizeram o protesto em frente a BBC. Bom, manifestação é justiça e a gente vai lá! E deu razão a [premissa] “não vamos fazer uma reportagem pela cabeça de meia dúzia de jornalistas, sejam eles quais forem”, concluiu.

“O verdadeiro valor da vida”
Durante cerca de uma hora Caco Barcellos falou para um auditório lotado de pessoas. Jornalistas e estudantes de jornalismo, além do público em geral, tiveram a oportunidade de conhecer os desafios e ouvir as histórias da carreira, desde os primeiros passos na profissão, até o atual programa Profissão Repórter, da Rede Globo. Além disso, casos e reportagens marcantes do repórter, que é considerado um dos mais importantes jornalistas investigativos do país.

Usando de muito bom-humor Barcellos abordou os extremos da desigualdade social no Brasil e usou disso para explicar os bastidores do Profissão Repórter. Segundo ele, o programa tem como objetivo ir onde os outros não vão, contar a história que não sai na imprensa na manhã seguinte a uma chacina na favela. “A imprensa vai até onde chega a cidadania e para aqui [na entrada da favela]. Nós subimos o morro”.

Caco também falou sobre o processo de seleção dos repórteres do programa. “Eu quero saber como esse jovem chegou na universidade. […] Eu pergunto para ele: qual é o nome do motorista que te trouxe até aqui? qual é o nome da sua empregada? […] qual é a favela que você ainda não conhece? e a resposta para está pergunta é quase sempre o silêncio”.

Caco Barcellos encerrou sua participação com lamentações do público que gostaria de entrevistá-lo. “Preciso pegar um avião para o Rio de Janeiro. Sou um colaborador do Criança Esperança e preciso estar lá”, justificou. Antes de ir embora,  no entanto, Caco usou mais uma vez de sua simpatia e passou seu e-mail diante do auditório ainda lotado para quem tivesse interesse em enviar perguntas.

 

Arlete Moraes

Jornalista | PIRADIGITAL | arlete@piradigital.com.br

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